A “Columna” Maldita
Edson Rontani Júnior, jornalista
“Não somos nada
disso que estão falando contra nós. Somos piracicabanos de coração”. Trecho de
carta escrita há 89 anos por um piracicabano desconhecido durante a Revolução Constitucionalista
de 1932, que ocorreu de 9 de julho a 2 de outubro daquele ano.
Os piracicabanos,
cerca de 600 voluntários que se alistaram em prol da uma nova Constituinte,
eram tachados de mercenários. E, note, não apenas pelas forças opositoras –
tropas federais comandadas pelo governo Getúlio Vargas -, mas como também por
outros batalhões e regimentos com os quais lutaram em conjunto.
Piracicabanos que
formaram o Regimento dos Funcionários Públicos ou o Batalhão Piracicabano foram
descritos como implacáveis e sanguinários diante dos opositores. Estavam lá
para fazer medo e matar. A história conta que cerca de 900 pessoas foram mortas
durante o levante, mas não registra - pelos menos para nós, paulistas - quantos
perderam a vida lutando contra São Paulo. Há citações históricas de
decapitações no Mato Grosso ou ao exílio no Rio Grande do Sul de simpatizantes
da causa paulista. Muitos, sem pormenores.
O Batalhão
Piracicabano teve fama semelhante à tropas federais do nordeste, as quais
combateram anos antes jagunços como Lampião e possuíam estratégia e milícias
sanguinárias no árido. Nosso batalhão foi incorporado à Coluna Boaventura,
liderada pelo capitão do Exército, vindo do Rio de Janeiro antes do início da
Revolução. Nossos conterrâneos nos representaram no Exército Constitucionalista
setores leste e norte (cujo QG sediava-se em Cruzeiro) e no 4º Batalhão de
Caçadores da Reserva.
“Piracicaba
enviou para a frente de combate dois batalhões de voluntários, tendo a tropa
piracicabana se destacado nos campos de batalha. É só lembrar a Coluna Maldita
que, no setor norte, ficou famosa por levar de vencida as piores missões que
lhe eram destinadas”, disse Alcides Aldrovandi no livro “A Vila e seus Vilões –
A história de um bairro”. Por aí nota-se que não foram à guerra de 32 apenas
para “bater ponto”.
“... estava o I
Batalhão Piracicabano, aliás, reduzido quase à metade então chamado Coluna
Boaventura, num sopé da Serra da Bocaina, aguardando ordem para tomar nova
posição, e eu conversar com o capitão mais o tenente-médico Dr. Lula (Luiz
Gonzaga de Campos Toledo) e alguns voluntários esperançados, quando nos
apareceu, montado a cavalo, um sargento apressadíssimo, com ordem verbal de
retirada imediata. Estampou-se no rosto de Boaventura uma raiva trágica, que
conteve a custo, e respondeu seco: “minha gente não se retira sem ordem
escrita”. A bravura do comandante dos piracicabanos é descrita por Jacob Diehl
Neto em seu diário no dia 15 de agosto de 1932, publicado no Jornal de
Piracicaba em 1935.
A tal “Columna”
Maldita não era suscetível à sensibilidade. “Chovia e fazia frio. Os cariocas
pediram para cessar fogo para esquentar os pés. Uns respeitaram, outra turma
desceria o monte e escalaria o fronteiro, metralhando e fuzilando o adversário
sem cessar”, conta o Jornal de Piracicaba de 11 de setembro de 1932.
“Aos
piracicabanos, chamam os inimigos – a Coluna Maldita – injustamente,
porém. Os piracicabanos combatem sem ódio e não fuzilam prisioneiros como
dizem. Não se arreceiam, porém, e resistem com entusiasmo invejável. São
bondosos até. Os ‘cariocas’ gritavam que os deixassem em paz, para acenderem
fogo e aquentarem os pés”. Carta de Antonio Moraes Sampaio, de Silveiras, 25 de
agosto de 1932
Outro piracicabano, Alirio Lelis Garcia, em carta
publicada no jornal O Momento, de 7 de setembro de 1932, mostra-se indignado: “Nosso
Batalhão recebeu do inimigo do epitecto de Coluna Maldita. E porque isto ? É
porque este punhado de bravos Piracicabanos, que deixaram tudo na sua linda e
hospitaleira terra, têm mantido com galhardia as posições que lhes foram
confiadas”.
O certo é que anos após o término da Revolução, o
silêncio tomou corpo e a “Columna” Maldita tomou rumo ao esquecimento.
(Publicado no Jornal de Piracicaba de 11 de julho de 2021)
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