6 de agosto de 1932
Edson Rontani Júnior, jornalista
A
comunicação não funcionava de forma instantânea como hoje. Na verdade, ela
viajava na bagagem de navios e no lombo de cavalos. As missivas demoravam meses
para chegar às mãos de seus destinatários. Dias atrás, li que o nascimento de
d. Pedro II só chegou a Piracicaba um mês após o fato propriamente dito. Me
lembro que a França só recebeu a notícia e reconheceu a independência do Brasil
em 1824, dois anos depois do grito no riacho do Ipiranga.
O
mesmo ocorreu com o fim da Revolução Constitucionalista cujo armistício foi
assinado em 2 de outubro de 1932. Os jornais de Piracicaba ainda noticiavam o
conflito entre paulistas e as forças federais quando as armas já haviam sido depostas.
Uma nota em “O Momento”, de 6 de outubro daquele ano relata, de forma
indelével, a rendição dos paulistas, quando se programava, para aquela data,
uma romaria entre os voluntários que já se encontravam na cidade.
Piracicaba
contava com três jornais matutinos: “O Momento”, “Gazeta de Piracicaba” e “Jornal
de Piracicaba”. As informações impressas se complementavam com o burburinho das
praças e nos alto-falantes como aquele instalado em frente à redação de “O
Momento”, na rua São José, próximo ao atual Poupatempo Estadual. Um diário era
lido de segunda a segunda pontualmente às 13 horas, alguns minutos após uma
sirene soar, convocando a população a se aproximar e tomar conhecimento dos
fatos da noite anterior. Notícias estas conseguidas por rádio, telegramas ou
voluntários que estiveram no front de batalha e se aqui se encontravam em
visita.
Curioso
é ver que a cidade se calou após a rendição das forças revolucionárias. Os
jornais que, de julho a setembro, traziam manchetes sobre o recuo das tropas
federais e a vigilância nas divisas de São Paulo, começaram a mudar o tom,
trazendo artigos como as “pequenas doses do galicismo”, tema de capa por
diversas vezes da “Gazeta de Piracicaba”, ensinando a influência da língua
francesa (dominante na época – o inglês se tornou usual apenas após a Segunda
Guerra Mundial).
Piracicaba
voltava ao normal. Escolas retomavam as aulas, o comércio voltava à sua rotina.
O silêncio era premeditado, pois, Getúlio Vargas deportou os líderes da
Revolução Constitucionalista para Portugal e muitos acabaram temerosos com
possíveis perseguições.
A
partir da segunda quinzena de outubro de 1932, a imprensa local passa a
explicar o propósito do Batalhão Piracicabano, alcunhado de “A Columna Maldita”
por seus membros agirem como mercenários, segundo relatos das forças federais.
Houve embate público entre dois veículos de comunicação sobre o saldo moral e
físico dos soldados e o soldo neles investido.
Resultado:
20 piracicabanos mortos em combate ou em decorrência dos quase três meses da
luta armada. Alguns não retornaram à Piracicaba, sendo enterrados em campos de batalha
como nas cidades de Areias e Itapira, que foi o caso de Romário Nery e Jorge
Jones.
Meses
depois ... anos depois ... A história perpetuou a memória dos 600 “Voluntários
de Piracicaba” que deixaram lar, família e a cidade para empunhar armas contra
o que era considerada a “Dictadura Vargas”. Essa memória ainda hoje faz parte
de nossa rotina, com o Mausoléu do Soldado Constitucionalista erigido no
Cemitério da Saudade, do Monumento ao Soldado Constitucionalista retirado em
1981 e remontado em 1988 na praça José Bonifácio, a denominação de praça (Ennes
Silveira Mello em frente ao TCI – Terminal Central de Integração), e ruas com a
denominação MMDC ou com nomes de piracicabanos que deram a vida pelo
democracia. São 89 anos de fatos encerrados no último sábado e que não ficarão
esquecidos em 2022 quando serão lembradas as nove décadas de evento que é
orgulho para muitas cidades, inclusive para Piracicaba.
Publicado
no Jornal de Piracicaba em 06/10/2021 e na Tribuna Piracicabana de 09/10/2021
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